Os universos da Marvel e da DC estão cheios de nomes gigantes, personagens que dominam capas, filmes, séries e conversas de fandom há décadas. Mas entre esses rostos mais óbvios continua a existir uma faixa de heróis que, apesar do talento, do carisma e da importância nas HQs, raramente recebe o mesmo foco fora do núcleo mais atento dos leitores.
É precisamente aí que vale a pena parar. Porque muitos destes heróis não são figuras secundárias por falta de qualidade. São, muitas vezes, personagens com identidade fortíssima, arcos memoráveis e um potencial enorme para conquistar público mais vasto, caso lhes seja dado o espaço certo.
1. Nightwing (DC Comics)
O melhor legado de Batman sem viver preso ao mito de Batman
Dick Grayson fez aquilo que poucos conseguem no universo do Cavaleiro das Trevas: saiu da sombra do mentor e construiu uma identidade própria. Como Nightwing, tornou-se um dos heróis mais completos da DC, combinando liderança, inteligência tática, agilidade e uma dimensão emocional que o distingue de quase todos os vigilantes do mesmo círculo.
A importância dele nos Jovens Titãs e em Blüdhaven mostra que não estamos a falar de um sidekick “promovido”, mas de uma personagem plenamente autónoma. Ainda assim, fora das HQs e da animação, Nightwing continua longe do destaque que merecia ter numa adaptação de grande escala.
2. Blue Beetle, Jaime Reyes (DC Comics)
Um herói jovem com uma mitologia mais rica do que parece
Jaime Reyes traz ao universo DC uma energia diferente: juventude, representatividade, humor e uma relação muito própria com uma armadura alienígena que tanto o protege como o empurra para conflitos maiores do que ele. O escaravelho não é apenas um gadget cool. É uma peça viva da mitologia da personagem, com implicações cósmicas e um enorme potencial dramático.
O que faz de Jaime um nome subestimado é precisamente essa mistura rara entre acessibilidade e ambição narrativa. Ele funciona como porta de entrada para novos leitores, mas também como personagem capaz de sustentar histórias mais densas. Ainda assim, continua a ser tratado como uma curiosidade lateral em vez de um ativo de primeira linha.
3. Moon Knight (Marvel Comics)
Um herói fracturado que nunca deveria ter sido reduzido a nicho
Marc Spector é um dos casos mais fascinantes da Marvel moderna porque existe sempre numa linha instável entre fé, trauma, violência e identidade. A ligação a Khonshu, as múltiplas personalidades e o seu perfil de vigilante tornam-no muito mais difícil de arrumar do que um herói clássico de rua ou um simples justiceiro mascarado.
Mesmo com a série do Disney+, Moon Knight continua a ser encarado por muita gente como um personagem de nicho. Isso diz mais sobre a forma como foi promovido do que sobre a sua força real. Há ali complexidade psicológica, imagética forte e uma voz própria suficiente para justificar muito mais destaque dentro do universo Marvel.
4. Sersi (Marvel, Eternos)
Uma personagem com escala mítica, mas quase sempre afastada do centro
Sersi é daquelas figuras que, quando olhas para os seus poderes e para o seu lugar na cronologia Marvel, parecem feitas para ocupar o centro do palco. A capacidade de transmutar matéria, a ligação aos Eternos e a passagem pelos Vingadores dão-lhe um peso que está longe de ser menor.
O problema é que essa relevância raramente se traduziu em verdadeiro protagonismo popular. A passagem por Eternals colocou-a de novo em circulação, mas ainda não chegou para a instalar no imaginário coletivo como uma figura decisiva do universo Marvel. E isso é estranho, porque a matéria-prima está toda lá.
5. Zatanna (DC Comics)
Uma das místicas mais poderosas da DC e, ainda assim, pouco falada fora do núcleo duro
Zatanna não é apenas uma personagem com um truque visual memorável. É uma das grandes forças místicas da DC, alguém capaz de entrar em histórias sobrenaturais com autoridade real e de sustentar conflitos onde magia, identidade e responsabilidade se cruzam de forma muito particular.
O facto de continuar relativamente discreta fora da animação e das HQs mostra bem como a DC ainda não explorou em pleno o seu potencial em live action ou em projetos mais centrais. E isso é uma perda clara, sobretudo numa era em que o fantástico, o oculto e o multiversal ganharam tanto peso no mainstream.
Porque é que estes heróis continuam tão subestimados?
Há três razões principais para isso acontecer vezes sem conta:
- Falta de investimento consistente em adaptações ou marketing dedicado.
- Competição constante com nomes gigantes como Batman, Superman ou Homem-Aranha.
- Tendência para os estúdios voltarem sempre às mesmas figuras quando procuram “segurança”.
O resultado é previsível: heróis com identidade forte ficam presos a um segundo plano que já não corresponde ao valor real que têm no material original.
O que pode mudar nos próximos anos?
Com o crescimento do streaming, das adaptações mais específicas e da procura por personagens menos óbvias, há espaço real para esta hierarquia mudar. O sucesso de obras mais ousadas e de protagonistas menos lineares mostra que o público já não precisa de ser guiado apenas pelos nomes mais conhecidos do cartaz.
Se houver coragem editorial e visão de longo prazo, personagens como Nightwing, Jaime Reyes, Moon Knight, Sersi e Zatanna podem perfeitamente deixar de ser “apostas de nicho” e passar a ocupar o centro da conversa.
Conclusão
Os heróis mais subestimados raramente o são por falta de qualidade. São-no, quase sempre, por falta de foco. Nightwing, Blue Beetle, Moon Knight, Sersi e Zatanna já provaram nas HQs que têm mundo, conflito e identidade suficientes para marcar gerações de leitores e espectadores.